As
organizações investem no desenvolvimento de uma cultura interna aberta
às mudanças na esperança de, com o tempo, inserirem uma postura voltada
para a inovação de forma contínua
Concursos de ideias têm se tornado populares nas empresas. Uma evolução
das antigas 'caixinhas de sugestões' nas quais os funcionários davam
idéias para melhorar operações, processos e produtos da empresa, estes
concursos partem do pressuposto de que o próprio colaborador é a melhor
pessoa para identificar oportunidades de melhoria e de mudanças
positivas para a organização.
Nestes concursos, executivos da empresa avaliam ideias que são
propostas por funcionários de qualquer área, unidade de negócio,
departamento, cargo ou localidade, individualmente ou em equipes. As
melhores recebem um prêmio, que pode ser uma viagem, um jantar, um bônus
em dinheiro ou qualquer outra forma de benefício.
Este tipo de inovação é diferente das inovações técnicas, em produtos
ou processos diretamente relacionados com o negócio, que requerem anos
de especialização e são conduzidas por áreas específicas dentro das
empresas, conhecidas como laboratórios técnicos ou de Pesquisa e
Desenvolvimento. Estas inovações tecnológicas dificilmente podem ser
originadas pelos funcionários de forma abrangente por exigirem um
profundo grau de conhecimento que está, invariavelmente, nas mãos de
engenheiros, cientistas e outros especialistas técnicos.
A inovação corporativa, por outro lado, é caracterizada por mudanças
incrementais de melhoria com baixo ou médio impacto no negócio e com
abrangência para todos os funcionários. As organizações investem no
desenvolvimento de uma cultura interna aberta às mudanças na esperança
de, com o tempo, inserirem uma postura voltada para a inovação de forma
contínua no DNA organizacional, permeando todos os funcionários
indistintamente. Assim, a capacidade de promover mudanças significativas
para reduzir custos, melhorar a imagem, aumentar a satisfação do
cliente, assim como nos produtos ou processos de negócio, precisam estar
ao alcance de todos os funcionários.
 |
| Imagem: Thinkstock |
A maioria das iniciativas corporativas voltadas para este fim se
limita aos já conhecidos programas de ideias. A seguir, passo algumas
dicas de como incrementar estes programas para que não fiquem apenas na
premiação das melhores ideias, mas que se tornem parte de uma cultura
organizacional voltada para a inovação como competência organizacional:
1) O 'dono' da ideia. De alguma forma é preciso
desmistificar a propriedade da ideia. Quem tem o primeiro lampejo da
ideia, o insight, a inspiração, não necessariamente é a mesma pessoa que
a desenvolverá de forma estruturada em termos de ações para
implantá-la, caracterização da oportunidade, levantamento dos recursos
necessários, antecipação dos riscos, mensuração dos benefícios e
formação da equipe. Tampouco é a mesma pessoa que vai efetivamente
transformá-la em realidade, executar o plano e fazer a ideia acontecer
efetivamente. A não ser que a pessoa que concebeu a ideia, tenha a
intenção e as competências para estruturá-la e implantá-la, ela deverá
abrir mão da 'propriedade' para que, de forma cooperativa, outras
pessoas com as competências necessárias possam trazer seu grau de
contribuição para fazer acontecer. Quando isso não acontece, as ideias
acabam morrendo onde nasceram. Quanto maior o grau de complexidade,
maior a chance de fracasso advindo deste 'medo que roubem a ideia e sua
autoria' por parte do funcionário que originalmente a concebeu.
2) A figura do padrinho. Para projetos de certo
grau de complexidade, com o envolvimento de várias áreas, prazos longos
de implantação, orçamentos robustos ou especificidades técnicas,
geralmente é necessário um apoiador com bom trâmite na organização que
tenha poder para tirar algumas 'pedras' do caminho do funcionário como
barreiras burocráticas, interação inter-departamental, apoios
institucionais, vontade política, etc. Estas limitações são superadas
mais facilmente com a influência positiva de líderes engajados na idéia e
dispostos a compartilhar os riscos do projeto.
3) Sistema de gestão. É importante que, na
medida em que a cultura se espalha pela organização, exista uma boa
ferramenta que faça a gestão das idéias em curso, nos seus diversos
estágios de maturidade e facilite o controle e a interação das pessoas
na formação de equipes, no trabalho colaborativo e na identificação de
outras possibilidades. Estes sistemas são abertos, normalmente
disponibilizados pelo portal do funcionário na intranet corporativa,
unificam idéias inseridas e aceitam contribuições de qualquer pessoa
dentro da empresa até mesmo ajudando a desmistificar a 'paternidade ou o
dono da idéia', conforme foi mencionado anteriormente.
4) Fluxo contínuo institucionalizado. O
processo deve funcionar mais ou menos da seguinte forma: Primeiro, o
funcionário tem uma idéia e a submete a um comitê que fará a primeira
avaliação e triagem. Idéias que demonstrem alto potencial de retorno
significativo passam para uma segunda etapa em que o funcionário recebe
ajuda para montar uma equipe e estruturar sua idéia na forma de um
projeto. Estes projetos são avaliados por um comitê executivo que pode
ou não dar o aval para que o projeto seja implantado. A partir daí, este
projeto é formalizado, incorporado à estratégia do negócio, recebe um
orçamento, metas e o apoio de uma equipe de consultoria interna para
tudo o que precisar para fazer sua idéia acontecer. O ciclo se encerra
quando a equipe colhe os primeiros resultados decorrentes do projeto.
5) Treinamento e capacitação. Nenhum
funcionário detém todo o conhecimento, habilidades e competências para
realizar sua idéia. Uma considerável parte de suas necessidades pode e
deve ser suprida a partir de um intenso programa de capacitação, um
investimento necessário não só para aumentar as chances de efetivação do
projeto como um instrumento de retenção de talentos com perfil
empreendedor.
6) Estrutura de apoio e suporte. Nem toda a
formação requerida pode ser obtida através de programas formais de
treinamento e desenvolvimento. Muito do aprendizado destes
empreendedores corporativos são obtidos na prática, durante o andamento
de seu primeiro projeto. Um 'escritório de projetos' que ajude o
funcionário a acompanhar o andamento do projeto e fazer uma boa gestão
de prazos, orçamentos, pessoas e ações é fundamental para aumentar as
chances de sucesso do projeto. Igualmente uma estrutura paralela,
formada por profissionais de diversas áreas de staff da organização,
como RH, Financeiro, contabilidade, operações, marketing, etc, deve ser
montada para dar consultoria e assessoria nas diversas fases do projeto,
até mesmo para ajudar o funcionário a conhecer melhor a empresa e seu
negócio.
7) Modelo de recompensa. Embora a premiação às
melhores idéias e resultados seja importante, não pode ser a única forma
de recompensa aos funcionários. Em primeiro lugar, a premiação ou
qualquer outra forma de recompensa deve ser extensiva a todos os membros
da equipe, não importando em que momento eles participaram. Um erro
comum é premiar apenas aqueles que implantaram a idéia, esquecendo quem
participou antes, na concepção da idéia. Outro ponto importante é
compartilhar os resultados diretos do projeto de melhoria ou inovação
para toda a equipe, de forma proporcional à contribuição e envolvimento
de cada um no projeto, previamente estabelecida. Normalmente esta
prática se aplica a resultados mensuráveis, como aumento de receita ou
redução de custos.
Outras medidas podem ser aplicadas dentro das circunstâncias de cada
tipo de negócio, de acordo com o porte e práticas já
institucionalizadas.
Estas medidas não substituem a festa da premiação das melhores
idéias. Ainda é importante manter a competição como forma de
endomarketing, em um processo contínuo de incentivo aos funcionários.
Estas sugestões são para empresas que já possuem a prática da competição
de idéias institucionalizada e precisam avançar para o próximo passo no
caminho em direção da sedimentação de uma cultura interna voltada para a
inovação em todos os âmbitos da organização.
site:
http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/como-implantar-um-programa-de-inovacao-na-sua-empresa/63442/